Quando a fala ainda não chegou, ou não dá conta de tudo que a criança quer dizer, a prancha de comunicação vira uma ponte. Em vez de chorar apontando para a geladeira, a criança aprende a mostrar a figura de "suco" e ser entendida na hora. Isso é comunicação alternativa (CAA): usar figuras, gestos e símbolos para dizer o que a voz ainda não diz. Este guia mostra como apresentar e usar a prancha no dia a dia, com calma e sem transformar em treino cansativo.
O que é a prancha e para quem serve
A prancha de comunicação é uma folha com figuras organizadas por categoria: comida, bebida, pessoas, lugares, sentimentos, atividades. A criança aponta a figura e o adulto responde ao pedido, dando sentido à escolha. Serve para crianças autistas que ainda não falam, que falam pouco ou que têm dificuldade de encontrar a palavra quando estão nervosas.
Uma dúvida comum assusta muitas famílias: "usar figuras não vai atrasar a fala?". A preocupação é compreensível, mas a orientação das entidades que acompanham o autismo vai no sentido contrário: oferecer uma forma de comunicação que funcione agora costuma reduzir a frustração e dar base para a linguagem crescer. Falar e apontar não competem; andam juntos.
Por onde começar
Não precisa apresentar a prancha inteira de uma vez. Comece pelo que a criança mais quer no dia a dia, aquilo que motiva de verdade.
- Escolha poucas figuras no início. Água, comida favorita, "mais", "acabou" e uma atividade preferida já abrem muita conversa.
- Deixe a prancha sempre à mão. Na mesa da refeição, na mochila, perto dos brinquedos. Comunicação acontece o dia inteiro, não só na hora do exercício.
- Associe a figura ao objeto real. Mostre a figura de "maçã" com a maçã na mão, para a criança ligar uma coisa à outra.
- Respeite o tempo dela. Depois de perguntar, conte alguns segundos em silêncio. A resposta pode demorar, e tudo bem.
Uma prancha enxuta, com as categorias essenciais bem claras, costuma ser o melhor ponto de partida para quem está começando.
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Modelar: o segredo de ensinar sem cobrar
A forma mais eficaz de ensinar a prancha não é pedir "aponta o suco". É o adulto usar a prancha enquanto fala, mostrando como se faz. Isso se chama modelar.
Na prática: enquanto você diz "vamos comer", aponta a figura de comer. Enquanto diz "quer mais?", aponta "mais". A criança vê o adulto usando as figuras naturalmente, como quem dá o exemplo de uma palavra nova. Com o tempo, ela começa a imitar.
- Aponte enquanto fala, sem exigir que ela repita.
- Modele o tempo todo, não só quando quer uma resposta.
- Comece pequeno: uma ou duas figuras por frase já bastam.
Como responder a cada tentativa
O que acontece depois que a criança aponta é o que faz a prancha funcionar. A regra é simples: toda tentativa de comunicação merece resposta.
- Atenda ao pedido quando der. Se ela aponta "suco", entregue o suco. Ser entendida na hora é o que motiva a usar de novo.
- Transforme em palavra. Ao atender, diga em voz alta: "ah, você quer suco!". Assim a figura ganha o som.
- Aceite o apontar imperfeito. Se ela encosta na figura errada, mas o contexto mostra o que quer, aceite e vá ajustando aos poucos.
- Não force a mão. Guiar o braço da criança até a figura costuma atrapalhar. Melhor modelar e esperar.
Ampliar a prancha aos poucos
Quando a criança já usa bem as primeiras figuras, dá para crescer. Acrescente categorias que façam sentido para a rotina dela: lugares que frequenta, pessoas da família, sentimentos ("feliz", "bravo", "dói"), partes do dia.
Uma prancha com mais categorias organizadas ajuda a criança a montar pedidos mais completos, como juntar "quero" + "mais" + "bolacha". Avance quando perceber que ela domina o que já tem, nunca para preencher a página. Pouca coisa bem usada vale mais que muita figura ignorada.
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Encaixar na rotina da casa
A prancha funciona melhor quando vira parte natural do dia, não uma "aula".
- Hora da refeição: peça para ela escolher entre duas figuras de comida ou bebida.
- Antes de brincar: ela aponta qual brinquedo ou atividade quer.
- Transições: mostre na prancha o que vem agora (banho, passeio) para avisar a mudança, que costuma ser difícil para a criança autista.
- Momentos difíceis: ter como apontar "chega", "quero sair" ou "dói" previne muita crise que vem da falta de ser entendido.
O que evitar
- Tirar a prancha como castigo. Ela é a voz da criança; tirar é calar.
- Transformar em prova. Perguntar "que figura é essa?" o tempo todo cansa e desmotiva.
- Esperar resultado rápido. Alguns dias rendem, outros não. O que conta é a constância.
- Usar só na terapia. A prancha precisa viver em casa, com todo mundo que convive com a criança usando junto.
Quando conversar com a equipe
Leve suas observações ao fonoaudiólogo ou à equipe se a criança parar de usar a prancha, se ficar mais frustrada, se as figuras já não cobrem o que ela quer dizer, ou se você ficar em dúvida sobre como seguir. Eles ajustam a prancha, treinam a família e combinam os próximos passos. Levar anotações do que funciona em casa ajuda muito nessas conversas.
Uma prancha pronta para usar
Se você quer uma prancha organizada por categorias, impressa colorida e com uma página de como usar, a prancha de comunicação alternativa da CogniVita vem pronta para começar em casa hoje. Dá para escolher a versão essencial, com as categorias mais usadas, ou a completa, com mais categorias para ampliar conforme a criança avança.
Fontes
- NICE. Autism spectrum disorder in under 19s: support and management (CG170), 2013. nice.org.uk/guidance/cg170
- American Speech-Language-Hearing Association (ASHA). Augmentative and Alternative Communication (AAC). asha.org/public/speech/disorders/aac


